Sabes aquele momento em que percebes que nada mais tens a perder?
Cansaste-te de abater a vida em apostas, em acordos sem razão de ser. Olhas para o presente com olhos de futuro, e no futuro, não podes viver. Tens nas mãos as armas que dizes usar para crescer. Até hoje, só te ousaram magoar.
“Percorria aquela escadaria de mármore branca e olhava para as colunas romanas (a primeira vez que soube ver). É um sonho, apenas um sonho (mas mesmo no sono, ainda os sei reconhecer). Desci a escadaria e piso a esplendorosa relva. O vestido branco de princesa (porque o sonho é o único lugar onde o posso ser), esvoaça com a leve brisa perfeita que se agita no ar, e nos passos dos meus pés desnudos sinto a relva a tocá-los, levemente, como o sopro daquela brisa. Pura, numa ingenuidade quase natural, caminho, lentamente.”
Sabes aquele momento em que outra alma te reconhece?
“Foi aí. Simples, básico, belo e evidente, poisei os olhos no pintor que brandamente, pintava um pôr-do-sol numa tela em branco. Não sabia, não conhecia, mas podia dizer, porque o meu sonho nunca mente, que dali nasceria um magnífico e único pôr-do-sol. A hora em que nasci.
Ele poisou o pincel. A camisola vermelha em contraste com o céu misturava-se nos meus olhos e sorri, timidamente. Tu levantaste-te do singelo banco de madeira (porque o singelo é a única forma real do ser) e estendeste-me a mão. E então, não sinto. Nem dor, nem perda, nem tristeza, só amor.
O sorriso abre-se no reconhecimento do bem-querer. ‘Ficas tão bonita, quando sorris’.
(Porque ali, apenas vês a minha alma, e não a gaiola onde se encerra).
Podias ter dito. Sem falar, com as palavras que lerias dos meus olhos. Mas não disseste. Porque (e não te esqueças de que é tudo um sonho) eu não gosto das palavras, e não me queres ver triste, não me podes desapontar). Serenamente, dei-te a mão, caminhando lado a lado. ‘Não podes estar aqui’.
Falaste, num tom terno, melodioso, com o mais belo sorriso, o primeiro que realmente estava a ver. A relva não era lugar para a minha alma, que ainda tinha muito a percorrer. Juntos, subimos as escadas, e (como nos sonhos não existe tempo) sentámo-nos. Afinal, naqueles momentos, eu era dona do mundo.
Gentilmente, porque não me querias assustar, poisas-me a mão grande e delicada no ombro. Com o toque, arrepiei. Como era macia a tua pele. E como a conhecia, mesmo sem a ter tocado, mesmo sem te ter visto.
O beijo surgiu naturalmente, como o devem ser todos os beijos, puros, sinceros, naturais.
E dos teus lábios, a promessa: “Encontrei-te, e hei-de encontrar-te sempre…”
Acordas, e sabes que nada mais tens a perder, a não ser a espera. Mas o meu sonho não mente, e sei que hei-de encontrar-te.
Não sei se fugirás com repúdio da figura, se te arrependerás, mesmo antes de chegar. Só sei que os meus sonhos sempre se revelaram e este, mais uma vez, não mente.
Caminho lentamente pelos bairros iluminados com a alegria do Natal. Todas as janelas cintilam, menos eu.
Enquanto caminho, procuro-te em todos os olhos, em cada gesto, talvez te possa reconhecer. Não sei se desta vez me reconhecerás, uma vez que não trago vestido o meu traje de princesa, nem sou apenas a minha alma, mas todos os outros pesos em que a vida me soube transformar.
Ao longe, uma porta de café, quente, reconfortante. E, de repente, quero entrar. Sento-me na última cadeira, a do canto. Não vás tu chegar, e sabes como gosto de recantos…
Não te conheço, nunca te vi, já te senti. E peço-te ao anoitecer, com a inocência de um desejo de criança, que chegues brandamente, ao raiar de um novo dia. O verdadeiro começo, o novo dia, o ínicio do viver.
Bebo calmamente o meu café, esquecida de como lhe gosto do odor. Automaticamente, retiro uma caneta da carteira e começo a escrever.
No papel deposito calmamente estas palavras, deixando-as repousar. Espero mais um pouco, mas não te vejo chegar.
Pego na caneta e poiso o pires do café sob a folha. Podes chegar atrasado, e acabar por ler. Agora posso sair porta fora e voltar. Ao mundo onde sorrio, onde tenho sempre uma palavra de alento a dar, onde, aos outros, sempre faço bem, onde conservo o meu sorriso, arma do dia-a-dia, que aquece tanto e tão bem...
Levanto-me e caminho até à porta. Lá fora, já anoiteceu. Faz frio.
Aperto o casaco vermelho contra o peito, e ainda aperto a caneta contra a mão.
Maquinalmente o olhar foge para dentro, onde tudo é quente e hospitaleiro. O sangue corre-me nas veias, cada vez mais lento, cada vez mais frígido. Descubro a razão porque sempre tive frio. Tu não estás comigo, para me apertares de encontro a ti, sentindo-te abraçar-me, sentindo o corpo aquecer.
“ Não vives, não sentes, és de gelo e não existes”.
E caminho, hoje e sempre, mesmo que não venhas a aparecer, porque ainda tenho um rumo a casa. Só não tenho outra alma, que me saiba aquecer.
Agora, de volta, nas luzes de natal que me flagelam a ideia, vejo quem sou. Um corpo demasiado pequeno para uma alma que, teimosamente, o tende a corroer.
“Encontrei-te e hei-de encontrar-te sempre”.
A mim, que nunca te vi, mas que conheço os teus olhos e os cheiro, falta-me o beijo. Quando quiseres, sejas tu quem sejas, desde que o invisível possas e saibas ver, ainda te espero. Porque para mim não há longe nem há tempo.
E o meu sonho, não mente…
“Façamos, então, o meu último contrato. Já que nada mais sei perder. Leva-me o corpo e deixa-me a alma, para que assim me possas, me possa, me possam reconhecer”.
…lá dentro, o empregado leva na mão a minha chávena, e amassa o papel, que arremessa ao lixo, em mais um gesto rotineiro.