terça-feira, agosto 23, 2011

Princípio

“Senta-te. A história é longa. (...) poderás saber como perceber melhor o tempo...”
Assim falou ternamente a voz (...)


Parou. Parecia que nada mais resistia a não ser o momento. Nada mexia, e no sideral vão do meu peito só entendia o coração pulsar. Dali a poucas horas também ele deixaria de viver. Contudo, a Terra continuaria a mexer, imperceptivelmente, num novo dia. Do seu centro, continuaria a cuspir fogo, inalterável, constante. Alheia à minha presença ou a qualquer outra existência que habitasse as suas entranhas, perduraria…

“Deixa-te estar.” - Continuou – “Não há pressa, o tempo todo molda-se ao nosso dispor”.

Balançou suavemente o corpo esguio até encontrar o beiral. Sentou-se, procurando definir a trajectória que os meus olhos encetavam. Pareciam perdidos na vasta imensidão minúscula que se delineava do alto do telhado. Aproximou-se mais e sentou-se ao meu lado, poisando calmamente as mãos grandes e elegantes nos joelhos, retomando a fala.

- “Quantas pessoas achas que já passaram por aqui?”

Os meus olhos voltaram a si e responderam-lhe, cáusticos e incisivos, num mutismo agitado que já não davam valor a nenhum tipo de vida.
A voz aflita, tão emocionada quanto confusa, alcançava-me, disseminada nas explosões.

- Desculpa! Perdoa-me ter-te abandonado,

Comecei por fim a entender a razão que me levava ao cimo do telhado e a história que acabara irremediavelmente por levar-me àquele fim.

- …e perdoa-me o que te estou a pedir…

Desinteressadamente, quase como se adivinhasse a resposta, levantou as mãos para o nada, balançando-as ao ar, por cima dos pequenos pontos vivos que se desenhavam abaixo, sob o raiar de um novo dia.
“Antes de concluíres o que vais fazer, antes de te alçares deste beiral e te atirares para o vazio que te espera lá em baixo, quero que te perguntes:
- Quantas pessoas seriam precisas para fazer tempo?”

Inclinei-me, preparando-me para saltar. Sentia o coração pulsar-me na garganta. Dali a poucas horas também ele deixaria de viver. Contudo, que assinatura teria eu deixado nos caminhos por onde passei? Sempre de fugida, sempre furtiva, sempre brusca demais, sempre com medo…sempre…
E aqui começa, ou acaba, a minha história. Sei que, ali, deitada naquele chão, coberta de destroços, podia adivinhar uma ténue pulsação. Não a minha, que cessava, mas a da Terra, feliz e em liberdade. Se me aproximasse, podia ouvi-la respirar.

 In "Saga, os Dias da Ira". 
[quem quiser mais, é só pedir :P]

quarta-feira, julho 06, 2011

Conclusão

Adeus, apertado sufoco deste eterno coração.
Escrevo-te outra história. E nos traços do que escrevo, dou-te novas linhas. Retiro-te da reclusão.
Rematei-te com as formas que me deste. Inacabado, mutilado, imperfeito. Livrei-te de mim, da minha infecciosa lentidão.
Fiz-te em linhas férreas, para que domines os cursos do meu sangue. Porque os ecos dos meus gritos não te alcançam. Dou-te um propósito. Outra intenção.
Porque a solidão é uma moléstia que gangrena. E a inércia, uma consentida solidão. A independência é a nova história que te cedo.
Fomos uma só cadência. Trinaste os compassos neste peito. Bateste com ânsias, com sede de muito, em sofreguidão.
Adeus, velho coração. Completo a narração.
Quero saber-te sepultado noutro peito, imerso noutra mão. Fora de mim, possas bater, mais devagar.