sexta-feira, setembro 16, 2005

Sonho

E foi assim...apenas um minuto.
Olhei o mar que se encontrava na areia, lânguido, suave, ameno, puro.
Ali, em frente ao mar, tudo parecia fazer sentido. Sim,disse, como quando se mente a um menino, muito baixinho, não vão os anjos descobrir.
Nas ondas do mar voltavam todos os meus dias, naquelas águas via a minha vida passar como num filme. Mas não me doía, não remoía dores, não buscava sorrisos, apenas via, ali, sozinha, sem sentir.
E sabia que aquele segundo iria acabar por ter um fim, tal como o pássaro voa e abre as asas ao horizonte, tal como o sol nasce e adormece, num outro monte, tal como o rio corre, para morrer de encontro a este mar.
Senti o seu cheiro, o seu olhar. Senti-o chegar, senti o peito a bater. Mas não era o sufoco da alma a mirrar, lentamente em mim, era a alegria de soltar os demónios que viviam acorrentados ao meu nome, ao meu modo de sofrer, essas sombras que me prendiam ao manicómio.
A água falta no deserto e a chuva inunda as criações, a vida é curta e a viagem uma história, os dias são longos e criam-me a memória.
E este mar trespassa-me e engrandece-me. Por um minuto, e nada mais, soube que não tinha medo, mesmo sem falar, disse todas as coisas, percorri todas as palavras, naquele minuto em que em mim, um mar foi Rei.
Mas esse mar veio de longe e como veio, foi, para encontrar um outro mar, nesse minuto precioso que marcou a minha ausência. E, tal como o fogo faz parte da terra e nasce de vulcões, levei esse mar na pele, no corpo, no amar. Em mim ficaram sempre gravados o seu jeito, o seu olhar. Conheço-lhe as acções, li-lhe as pulsações e encontrei-me num azul cristalino, ali onde o mar se deita na areia, onde doces e serenas as ondas sussurram murmúrios divinos, baixinho, não vá o céu ouvir e a história acabar, nesse minuto em que o mesmo sol que se levanta no infinito, desce veloz, em direcção ao imenso mar. Assim, como num sonho, simples, sem sentido, forasteiro, irreal…
Sim, disse em sussurros, vai que eu aceito! Sigo o meu caminho…não me esqueci de nada, não minto, disfarço.

1 comentário:

Sara disse...

Tão sereno... mas digo-te baixinho, não vá o Sol ouvir-me e levar-me a sombra.